quinta-feira, 21 de maio de 2015

Para José Afonso
António Ramos Rosa

O canto que se erguia
na tua voz de vento
era de sangue e oiro
e um astro insubmisso
que era menino e homem 
fulgurava nas águas
entre fogos silvestres. 
Cantavas para todos
os acordes da terra,
os obscuros gritos
e os delírios e as fúrias
de uma revolta justa 
contra eternos vampiros. 
Que imensa a aventura
da luz por entre as sombras! 
A vida convertia-se
num rio incandescente
e num prodígio branco
o canto sobre os barcos!
E o desejo tão fundo 
centrava-se num ponto
em que atingia o uno
e a claridade intacta.
O canto era carícia
para uma ferida extrema 
que era de todos nós
na angústia insustentável. 
Mas ressurgia dela
a mais fina energia 
ressuscitando o ser
em plenitude de água
e de um fogo amoroso.
É já manhã cantor
e o teu canto não cessa 
onde não há a morte
e o coração começa.