Recostou-se na poltrona diante da janela enquanto afagava o
macio pelo do felino que lhe circundava as pernas. Com um gesto brusco, acendeu
o fósforo e elevou-o até ao cachimbo que lhe tremia nos lábios. Trincou-o com
força enquanto a chama e o tabaco baloiçavam numa doce provocação, terminada
num orgasmo de fumo espesso que diluiu à sua volta um complexo e exótico
perfume de canela, jasmim e chocolate. Restou, especado, numa quase total
imobilidade e que se não fossem os sinais de fumo, alguém o julgaria por certo
inerte, embora tal também não fosse novidade para quem passava por debaixo
daquela varanda e se tinha habituado a ver o olhar absorvido que caracterizava
o rapaz.. Diriam que era um hábito dele, um jeito que o fazia manter a placidez
e, às vezes, irritante serenidade. Mal saberiam que aquele rosto escondia
graves perturbações que não eram mentais nem físicas.. o rapaz simplesmente
viajava, levitava em sonhos, balanceava-se nas profundezas do subconsciente
quase ao mesmo ritmo com que as partículas do fumo lhe enchiam o peito. Mas
naquele dia nada era assim. Esperava apenas. Esperava pela figura esguia..
esperava pelo olhar naquele rosto perene de deslumbre.. suspirava pelos
planetas de brilho azul que lhe habitavam as órbitas.. suplicava pela candura
dum toque ternurento.. ansiava pelo aceno colorido e de expressões
metamórficas.. esperançava-se pela delicadeza imperturbável do fragor..
desejava inundar-se nas cascatas de fios que lhe cobriam a cara.. e sobretudo,
acreditava na paixão que lhe preenchia a alma.
Eis que tão aguardado momento chegou. Desconcertante tal a
indiferença que a transformavam numa plena de vida, com a beleza mais
intimidante e tímida que lhe revelavam um harmonioso e desejável fulgor.
Abraçaram-se num conforto que só eles conheciam. Tudo e só,
por um adeus..
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